sexta-feira, 9 de março de 2012

Sinfonia em Helsínquia

Sinfonia em Helsínquia


Através de notícia da RTP, ficamos a saber que “A chanceler alemã participou hoje num encontro de centro-direita”, acrescentando-se de seguida que” o ministro das Finanças finlandês defendeu que Portugal “tem de fazer mais” para combater o défice orçamental”. Antes de apresentar os factos, pode-se ler também na notícia o que defende a chanceler e o que pretende fazer o BCE. Por serem duas coisas muito distintas vamos por partes. Factos são coisas distintas de desejos e prováveis decisões.
Quanto aos primeiros, o encontro foi entre “líderes europeus de centro-direita” e teve lugar em Helsínquia. Jyrki Katainen, ministro das Finanças da Finlândia faz o aviso sobre o défice em Portugal. Já no caso dos prováveis e desejos, apelou Merkel, em conferência de imprensa, aos líderes da EU por uma resposta convincente. O Banco Central Europeu anuncia a provável subida das taxas de juros. O que está em causa é a Zona Euro e um pacote conjunto.
Acontece que distintas são ainda outras coisas que aparecem agrupadas no texto. Os líderes europeus de centro-dereita é coisa diferente de líderes da EU. O anfitrião até é candidato a futuro primeiro-ministro dos Finlandeses. A quem a chanceler se referia só podem ser os membros das Instituições e seus líderes. Quando os chefes de Estado ou de Governo dos Estados-Membros e o Presidente da Comissão Europeia, em reunião presidida por Herman Van Rompuy, se juntam em Conselho Europeu fazem-no em nome dos povos que representam. Os líderes com quem Angela Merkel se reuniu fazem parte de outro campeonato. Emitiram opiniões de cariz político, proferiram a sua Politics. A politie Europeia manda reunir de três em três meses, e os líderes dos povos falam. A consulta prévia entre camaradas é normal em Democracia. Mal seria se assim não fosse. De forma a concertar algumas posições bem como a discutir previamente outras tantas, Helsínquia foi palco deste encontro. No próximo dia 11 de Março a reunião será na sede do Conselho Europeu em Bruxelas, no edifício Justus Lipsius, sendo o presidente assistido pelo Secretariado­‑Geral do Conselho. Aqui os lideres Europeus irão reunir extraordinariamente e de forma informal. Vão por em dia as conversas, vão sondar, pressionar, encorajar, avisar, em nome de quem representam, os seus homólogos e parceiros. A política de centro-direita foi apresentada pela voz do ministro das Finanças Finlandês. Apenas essa. Ali falaram de peito aberto, disseram o que defendem para os seus países e para os outros. Os comentários recaíram sobre os aflitos, alvos fáceis e mesmo a jeito. Elogios para um, Espanha, pressão sobre outros, Portugal, Irlanda e Grécia. Entre almoços servidos, intransigência para reestruturar dívida e conselhos aos mercados de ordem psicológica pois podem ficar nervosos, lá proferiu os seus desejos para Portugal. Tem o Governo Português de fazer mais para combater o défice e para reformar a economia. O que, de Portugal, dizem ter feito não chega e de nada lhe serve que seja o melhor que sabem. Aponta para os assuntos estruturais que tão bem parece conhecer e sugere o mercado de trabalho como ponta por onde pegar. Jyrki Katainen, talvez o próximo primeiro-ministro da Finlândia, está imparável na sua corrida política. Aponta para Portugal para ganhar a Finlândia. Quanto à Policy Europeia, pretende que sossegue os mercados (ainda chocados pelo anúncio de Jean-Claude Trichet), aumentando um Fundo de Resgate não disponível para nenhum outro país. Triste nome para um plano de salvação de Bancos Privados, justificado pelo vil rapto. Os mercados, investidores privados com acesso a capital, os próprios Bancos Privados, preferem poder continuar a elevar os juros. Até é sabido o montante que vai ser pedido aos mercados. Parece-me que se pretende sarar as feridas dos mercados, à custa dos juros cobrados aos fracos, usando o Fundo como instrumento libertador, garantindo que não se perderão nos braços do raptor. O rapto de Helena sempre me deixou de nariz torcido. Já o Rapto de Europa tem o seu encanto. Leva um Deus, eleito o Deus dos outros Deuses, a assumir o corpo de um touro que atravessa os mares. Seduzida por um Touro, Europa parte Encantada no regaço do seu raptor para espanto de todos. Ficou declarado por Zeus que todos os seus filhos hão-de reinar entre os homens.
Uma forma de interpretar os factos é dizer que a Irlanda terá de pagar o almoço a uma taxa de juros de 5,8 por cento e não menos. Para poder desapertar um pouco a corda no pescoço, tem de alterar compromissos fiscais. Menos corda à volta da cintura e falta de ar poderiam querer indicar mais atenção. Este médico é convocado para tratar a Europa e só olha para Helena. O interesse privado dos mercados é fundamental para os líderes europeus de centro-direita.
 Os outros líderes vão numa sexta informal tentar salvar a Zona Euro, já alargada a dezassete Estados-Membros. Jean-Claude Juncker, “que dirige o grupo dos ministros das Finanças da Zona Euro” fará tudo o que for necessário para ter uma moeda forte. A provável decisão anunciada pelo BCE agrada-lhe, está de acordo com os desejos da coligação que suporta a chanceler na Alemanha e com as pressões do Banco Central alemão. O fundo de estabilidade financeira foi criado para disponibilizar dinheiro aos Bancos Privados. Com as taxas de juro a subir os privados vão colocar esse dinheiro na economia e também comprar dívida pública. O fundo de estabilidade financeira acaba assim por tapar os buracos que de repente os bancos mostraram ter. Como o dinheiro que sumiu era virtual bem podem deixar cair os telhados. Os deficites orçamentais de cada país nada têm a ver com os mesmos buracos, a não ser em alguns casos de maior compaixão pelo pobre depositante. Para Merkel nada está excluído das discussões mas esteve a discutir com camaradas políticos, líderes nos seus países, defensores de uma agenda bem conhecida.
Para terminar há ainda que referir algumas curiosidades da política nos dias de hoje. Dois dias depois de receber em Berlin o Primeiro-Ministro de Portugal, detentor de mais um record, a execução orçamental mensal mais rápida da História (deve ter pensado que com a sua rapidez podia alterar a política de centro-direita europeia), é curioso ver como cabe a um Ministro das Finanças de um terceiro país anunciar o resultado do exame. Ao nível do aluno adequa-se o do professor. Nada de desperdícios com a gestão do pessoal. Angela Merkel fala para outro patamar, para os líderes da EU.
A chanceler Alemã quer garantir o trunfo eleitoral a apresentar mais tarde ao eleitorado alemão. Limitar o campo de aplicabilidade do Fundo de Estabilidade Financeira, ainda que o deixe engordar. Os contribuintes alemães não estão dispostos a pagar as folias a que se assiste nas nossas arenas. A boa nota com que Espanha foi distinguida não está em nada relacionada com a dimensão daquele. Se é verdade que não se caçam baleias com anzóis, também se sabe que quanto maior a presa maior o engodo. Almeida Garrett, em Viagens na Minha Terra compara a bravura do homem que enfrenta o touro com a bravura daquele que enfrenta as ondas. Em ambos os casos, Espanha conta mais do que nós. Em Portugal repete-se que já não são precisas eleições, que é certa a vitória da direita. Com aliados deste calibre não admira. A reboque de uma reunião informal de sexta-feira, dar-se á cobertura política ao que vai acontecer nas próximas semanas. Há que garantir que se percebe de onde vem o mal.

sexta-feira, 4 de março de 2011

…MOFO

MOFO

…A janela aberta trazia arrastado pela brisa o cheiro a mofo. De tempos a tempos ao ritmo da brisa da madrugada. Eram já as madrugadas quentes do início do verão. As limpezas no chão do quarto tinham-no deixado satisfeito e no entanto, a brisa trazia-lhe o cheiro fétido da água suja entranhada no soalho. Afinal a limpeza não tinha sido suficientemente perfeita…

Caminho

Abro uma porta.
Não vejo nada.
Encontro-me numa sala,
sem tecto.

De cima entra uma luz tão limpa e clara,
branca,
como o branco das ondas a desfazerem-se na areia.

Não se vê nada.
Sinto o crepitar do fogo preso nas velas,
que iluminam o chão,
delimitando o caminho a percorrer.


Razões para...

Para beber, o Sol.
Para sair de mim, um horizonte.
Para sentir, sofrer.

Para pensar, absorver o mundo.
Para chorar, a ausência pela morte.
Para recordar, a infância.

Para escrever, o vazio.
Para escrever, a vida.

Para sorrir, o belo.

Para rir, os amigos.


FADO LOUCO



Fadista Louco




A ideia de existir
Um Fadista Louco
Que não 0 melhor
Nos poemas cantados
No Fado,

Ou melhor
A ideia,
De ser eu,
O "Fadista Louco",

Será a razão
Para aprender
A cantar, a cantar
O Fado,

Ou melhor,
A ser eu
Fadista, Fadista
Louco.


Desacordo semântico?

ponho um ponto
canto um canto
pranto um pranto
começo no começo
sossego no sossego
parece e pareço
estudo o estudo
falo a fala
caminho o caminho
gosto do gosto
testo o texto
vejo-o o tejo


Pensionário

Guerra - quem ama é mais justo na guerra.
Crise - momento para amar intensamente
Adeus! - Sinal de que alguem fica.


Fantasia

os poemas de amor são patéticos.
em parte por serem sempre verdade.
o amor é universal.
se disser que a minha nuvem se aclara quando penso no teu amor.
não é nada de original.
não é fácil sê-lo.
no amor nada é novo e nem é preciso inventar.
preciso é só amar. amar. ser verdadeiro.
não ter medo de nada.
gostar de dentro para fora. gostar por inteiro.
gostar tanto.
gostar até ter frio só de em ti pensar.
sobe o sangue ao coração e aí permanece.
deixa de dar calor à minha mão que a pensar em ti escreve.
pensar que de novo te posso sonhar é remédio para a maior crise.
se no fim for apenas fantasia, que seja a de um conto de amor.


Entre a dor e o nada

Dói-me.
O pé dói-me tanto!
É naquele sítio do calcanhar já a subir para a perna.
Quando o pé acaba.
Dói-me o fim do pé e o fim da perna.
Dói-me o pé.
Dói-me a perna.
Dói-me tanto!
Parece que apenas tenho o fim do pé e o fim da perna.
Nem sinto mais corpo.
Já me dói tudo.
Tanto!
Não tivesse esta dor no fim do pé.
Não tivesse esta dor no fim da perna.
Não tinha mais corpo.
Não tinha nada.
Vivo ligado a um fim de pé e um fim de perna que me doem.
Não me doesse nada e nada era.
Era apenas aquele fim de fronteira.

Era a dor.

-Era tudo?
-Sim, era.

A perna agarrada a mim faz-me doer.
O pé que ali começa anda a doer-me.
A dor que ali trago prolonga-me.
Do pé para a perna vamos andando.


adn

Há noites que é tudo o que eu queria.
perdido no fundo do meu exílio.
sinto dor é um martírio
como quando não sabia o que fazia.

Ai! Era a alma que me doía
Tornaste-te para nós num sírio
onde encontramos o único sitio
que pelos dias anónimos nos seguia.

Os amigos ou a música nos chamam
Isto não é para os que não amam


De olhos abertos

Eu transcendo. Nada transcende. Os conceitos
não me deixam transcender. Liberto-me
pela transcendência. Pela transcendência
sou o poder. Criador de novos significados
respigados pela imaginação, quando
liberto dos poderosos grilhões olimpicos.
A minha transcendência é intransmissivel.
Sempre que vejo a lua, porque se interpõe
entre mim e o infinito, petrifico.
Transcendo. Quando acompanhados
apreciamos o nascer do dia, cada um
transcende individualmente. tu transcendes.
Eu transcendo. Nós transcendemos.
Nada no mundo transcende fora de nós.
A transcendência é aquela experiencia
de sair para fora de nós. Eu gostava de
transcender pelas palavras, pairar no intervalo
entre dois impulsos eléctricos cerebrais e
assim como que sentir-lhes o fluxo e
dominar as suas linhas de força e frear
ou acelerar a corrente. Depois temos que
regressar a nós, a casa. Eu transcendo a
ideia de um espelho de água calmo e
sereno quando mergulho e abro os olhos
debaixo de água. Mas de olhos abertos
transcendo.


Monotonia

Tenho uma página rasgada.

Será apenas neste livro?

Dia após dia encontro novas páginas que quero rasgar. De novo encontro páginas em branco que me fazem querer escrever. Quero escrever nas suas almas. É isso acima de tudo o que me dá prazer. Nem as loucuras que se arrastam, nem o cansaço do dia nem mais nada. Só ler e isto, escrever nas almas de pessoas singulares, estimulantes e por vezes fugazes.

Na tentativa de encontrar a alma inerente a cada página.

De forma a quebrar a monotonia, sentida por uma página, cheia de linhas por preencher, continuo a escrever.

Agora, devido ao medo que sinto dos dias monótonos e insignificantes começo a ganhar a coragem para sair deste lugar sem lugar para mim.
Preciso de reunir as condições urgentemente. Ainda acredito na minha ideia.


Sem terceira via

"Desejo contém futuro. É por isso uma boa palavra.
A fragilidade das relações humanas torna as pessoas mais sóbrias."

David Grossman

Acrescento eu, amargas.

A coragem de se colocar no papel do nosso adversário e aí analisar a versão contraria à nossa, dá-nos a verdadeira e completa realidade.

A nossa e a outra.


Tenho frio

Há um lugar dentro de mim que tarda em ser preenchido.
Num passado não muito distante, três anos, a presença na mesma cidade de uma pessoa muito especial, afastava de mim a sensação de estar perdido, num imenso espaço de pessoas desconhecidas.

Embora não tivesse um contacto muito frequente com Sofia, a sua presença em Lisboa dava-me a sensação de ter um abrigo no seu ombro e enchia a cidade agora vazia.

Sofia partiu para um país distante. Começou uma vida nova noutro país.

Eram completamente alucinantes os nossos encontros. Havia sempre a certeza de bons momentos, a possibilidade do inesperado se concretizar, a beleza de uma conversa inteligente, o deslumbramento com a sua enorme alma.

Por diversas vezes, foi também possível viver a cidade. Jantares, concertos, idas ao Teatro, entre outros momentos, davam-me a sensação de estar no sítio certo na fase certa da minha vida.

A sua partida foi um grande abalo. Disse-lhe no noite da nossa despedida: Fizeste com que a cidade parecesse mais pequena, mais acolhedora, menos fria.
Tenho a certeza de que apesar de ires para o país do frio, serei eu a tremer.
Entre nós há uma sucessão de voltas que, ora nos separam, ora nos aproximam.


Sobre a morte

A morte não tem pressa. Há cidades em que se vive

a correr, sempre cheio de pressa. Quase não se

dá pela morte. E no entanto, morre-se

em cada dia que passa e de repente, sem

nos apercebermos, morremos.


Lisboa é uma dessas cidades. Raramente

nos apercebemos da morte sempre

presente.


"antes a morte que tal sorte"

haverá uma resposta satisfatória para a ilusão?

existe um problema perigosissimo em basear uma relação numa ilusão

um dia ela pode acabar

arrastando dessa forma muitas das certezas que assim descobres não serem afinal mais do que ilusões

sonhas, constróis ilusões, prossegues num caminho e de repente esse caminho acaba.

funde-se num mar de ilusões e entras em queda livre por te faltar um chão por onde avançar.

assim, de repente.

ainda mais rápido do que o tempo necessário para construir uma ilusão.

claro que o amor é uma ilusão

não serve portanto para ser a base de uma relação

no entanto acho-me incapaz de fazer um investimento de tipo especulativo em relação a alguém.

quando as acções têm margem de progressão compras e assim que encontras outro investimento

que consideras mais rentável vendes tudo e refazes a tua aposta

nem se trata de retirar mais valias

se sobe, apostas.


''Fragmentos diários''

Há um determinado objecto que pertence ao guarda-fatos.

Cá em casa esse objecto pertence ao guarda-fato.

Fato usado, gasto pelo tempo.


Pós materialistas

Vós fazeis viagens sem ter fito no destino
Nós vemos fotografias em revistas ou sofás
Pós de descobertas de lugares tão esquecidas após

Vós correis léguas em escadas rolantes
Nós trepamos colinas em escadas de pedra
Pós que sujam sapatos tão brilhantes já não após

Vós tendes três carros em garagem pessoal
Nós esperamos em filas para o passe mensal
Pós no pára-brisa que esperam sedentos após

Vós viveis cercados, filmando o que é fora
Nós amontoamo-nos em ruas que duram a hora
Pós tão presos que se desprendem das flores após

Vós morreis isolados da matéria fundamental
Nós mortos cansados de etérea ornamental
Pós materialistas somos todos, vós, nós, após


Silêncio

Acabou mais uma vez.
No final apenas um um longo silêncio.
Esta Rocha dura e fria em que me transformei apenas grita o mudo adeus.
Por sabê-la tão perto, temo falar demasiado.
A proximidade amordaçante não permite que diga em voz alta que acabou.
Está tudo redito.

Da caneta não pingam palavras como era costume.
O meu silêncio secou a pena de escriba.
Será uma simples recusa solidária ou falta de tinta?
Se de falta se trata, maior será o meu problema.
Onde vou agora encontrar, à venda, a tinta do amor?
Procuro pacificar a alma escrevendo. Não consigo.
-Silêncio!
-??!
-A vossa vida atribulada perturba o meu silêncio.


Eu-sô-rio.

Ó rio que corres por entre as pedras!
Foges da turbulência da tua nascente.
Jovem, com pressa em ser grande,
Não sabes que no fim da tua corrida,
Serás mar salgado, enorme, pesado e turbulento?
E que importa ao rio que, grande se desfaz,
Que se entrega de braços abertos ao oceano, em paz.
Terás memória suficiente para reconhecer
de que nascente és filho permanente?
És livre quando rio.
Corres desde fio
Até mar solto, profundo, frio.
Quantas vezes visitaste a nascente!
Diferente de ti sou, eu que embora quente,
Sou superfície sem espelho, tão indiferente.
Só corro, lento, parado por vezes.
Sem certeza de que mar será meu fim.
Diferente de ti, sendo eu água de ti,
Choro-te já turbulento, salgado, sem lamento.
Profunda tristeza nesta melancolia tranquilamente indiferente.
Eu, rio, sou mar e sou desalento.
Cada dia que se acaba eu aumento.

Longe...

Em estado de euforia,

Queria testar o desalento

Lembrei-me de recorrer à poesia

Como forma de fugir deste tormento


Longe do estado habitual, poderia?

Aproveito para espalhar ao vento,

Vozes infectadas com douta alegria

Deste lugar em que hoje me sento.


Toca o telefone, atende a velhinha.

Queria alguém mais novo, que fazer!?

Atende uma voz simpática, vizinha.


Posso pensar neste fado e cobri-lo de prazer

Ajuda a ganhar palha para levar a vidinha

Desta ou d'outra forma, estou longe do meu ser.


Não

Turvo. Pesado.Arrastado.Pendurado

pelos suspensórios no ponteiro dos horas.

Ainda se fosse no dos segundos! Nem

alucinante viagem nem pausada alegria.

Avanço, por sentir alvescer o pêlo, sei-o.

Cruel turtura. - A hora que não passa!

- Já de nada serve lamentar o avanço,

sei-o. Não servirei para estudo de historiador,

seria uma tarefa monótona, vazia.

A carcaça a ninguém servirá. Nem abutres

em repasto a quererão. Na marquesa também não

me encontarão. Vivo sou um peso

e depois disso um peso. Não quero sair

deste ano em que completo 35 sem

me erguer mais uma vez.


O ser dentro de si

Surrealismo.
Perto do real.
Perto ou longe?
O perto que se afasta...
como quem foge,
de si. A sua imagem gasta
ouvi que morreu hoje
lê-lo mesmo sem percebê-lo. Vive. Basta.

26-11-06

Saiu. Não pretendia voltar mais.
A sua capacidade para viver tinha
excedido o limite aceitável.


O ser dentro de si existe.
Cérebro, frio.
Coração, vazio.
Músculos tesos
Ossos presos
A pele, solta, viçosa, é o tudo
que prende o ser dentro de si.
O que lhe dá forma é a memória
que de si tem.


Olhares Celestes

Duas toupeiras viviam debaixo do meu quintal.
Sempre viveram de costas voltadas.
Uma debaixo das rosas, a outra do pinhal.
Era a sua cegueira o que as mantinha separadas.

Soprava, certo dia, um vento tão forte.
Que desnudou as roseiras e os pinheiros levantou no ar.
Mas o que de mais lhes tinha trazido era má sorte.
Estavam as toupeiras na horta sem mais nada o que cheirar.

Quis a crueldade do cúpido vê-las casadas.
Vénus foi convocada e chamou-as ao altar.

-Ó toupeira que de rosas te cobres,
Diz-me como te posso agradar?
-Ó Deusa do amor, se tanto me concedes,
Quero ver. Não me serve mais cheirar.

-Ó toupeira que a pinhas me cheiras,
Conta-me como te posso presentear.
-Ó ser alado, por amor assim o queiras.
Abre-me os olhos. A minha amada quero olhar.

Viram-se enfim as duas toupeiras.
Logo os espinhos e as agulhas começaram a picar.


Imortalidade

Negra. Fria. Sempre. Simplesmente densa.
Monotonia descentrada. Claramente imensa.
Pacífica. Potencial integro. Quimicalidade
primordial. Naturalmente não-viva.
Toda a robustez caracterizadora desta velha
rocha imortal, desaparecerá um dia no
momento em que o último golpe do
vento marítimo, agreste a varrer definitiva-
mente como a poeira momentânea.


Possibilidade Imaginada

Noite escura. Rio dormente. Negro.
A ausência da luz que te revela
Traz-me a possibilidade
De te imaginar. Aí. Firme, presente.
Correndo discretamente, ora para cima,
ora para baixo. Não o revelas. Apenas
sei que aí estás. A minha luta
por esquecer que a morte está presente
de dia e de noite obriga-me a
tomar por certo a tua existência.
Assim como os fantasmas existem
na possibilidade imaginada.

Corro. Salto as barreiras. Vivo e morro
em cada dia. A meta não é
um objectivo. A experiência de cada dia
basta-me.

Escuro total. Silhuetas perfeitas.
A noite torna-se a manifestação do
mundo sem sombras. Sentimos
essa falta e achamo-nos
abandonados.

Há uma hora em que somos avisados.
- Repara como eu sou livre.
- E por breves instantes ela desaparece
sob os nossos pés. Na maior parte
dos dias estamos desatentos ou
ocupados demais para ouvir o aviso
é chegado o momento do crepúsculo.

- Tornas-te enorme, fina, poderosa.
Mais do que nunca a sua presença
transmite-nos aquele sinal de
segurança. Como um anjo da guarda.
De repente some-se. Para onde irá?
Para leste. Esse oriente saudoso.
Origem da nostalgia que nos
embala e nos espreme a alma.

A sombra escura é aquilo que define
o dia. A noite é apenas a sua
ausência.

Setúbal é um presépio. Apenas
há lugar para um São José, uma
Maria, duas ovelhas, um burro, uma
vaca, três reis Magos, etc..
Todos os lugares estão tomados.
Não necessariamente pelos melhores
representantes.


Solidão

Solidão é acreditar num sol que só a mim pertence.
Mesmo que não retire o sol a ninguém.
É não querer acordar, para não não te ver também.
Por não ter com quem festejar, preferir quem nunca vence.

É servir à noite para jantar, dois pratos, dois copos, vazios.
Para não ter a quem perguntar se viu o que mais ninguém viu.
Usar barba por não se lembrar, do beijo num rosto macio.
É ser pepita de sal numa lágrima, chorada na nascente dos rios.

Não casar, não ter filhos, ser velho aos quarenta,
Não amar nunca mais para não sentir o coração.
Assim querer continuar, pelo menos até aos noventa.

Percorrer mundo com semente na palma da mão,
Em busca da terra que melhor a alimenta.
Para poder viver mais tempo em solidão.


Poema em Construção

Tal como as núvens,
pairavam suspensos por fios imaginários.
Infinitamente paralelos,
apenas de perto perceptiveis.
Pontos e traços de uma mensagem
eterna.
Decifrável usando o segredo,
conhecido por quem partilha sentimentos,
ainda eternos.
Vaguevam num carrocel ondulante,
os pontos e os traços da cifra do amor.
Na terra deitado, a lua admirava.
Tinha por companheira um porto de mar.
Pontos e traços em segredo desenhavam,
no breu do firmamento,
esquiços do teu beijar.


Página # 32

Mais um dia chuvoso. Mais um ano.
E no intervalo que se estabeleceu entretanto
Tanto mudou. Mudou o calendário,
Mudei eu. Um ano de Mudas e danças.
Dancei de tanto estar parado.No coração.
Ou não. Mudaram os usos, mantiveram-se
os costumes. De tarde e de noite descemos
vezes sem conta a uma praça no fim da
cidade. Tinhamos a certeza de lá
encontrar um recanto acolhedor.
Por vezes era tão só para afogar a
sêca dor. Por vezes era mesmo em busca
de Amor.


LEITO DE MENTE

" Como é perpétua a embriaguez com que alegro a mente!"


Silêncio

Filmes, imagens, cheiros da tua ausência,
Inundam-me o espírito de solidão.
Levam-me o sono, a fome e a paz.
Induz tanto frio o teu silêncio.
Poderei ouvir-te uma expressão,
Amiga, sincera, estulta, tanto faz?


SEM CERTEZA

zero absoluto.inércia suprema.
perpétuo sentimento de vazio.
apesar de a vida proseguir e se adensar
de implantes, o sentimento é de imobilidade.

no momento do primeiro passo, terei força para tal fardo?
não estou por certo mais forte, nem por fora.




o primeiro passo foi dado.

fui forte.


MANIF

Defender palavras sem bandeiras
simbólicas teses frias e nuas
verdades cruas.


RETÁLHOS

os melhores momentos passei-os a lêr. continuam a ser aqueles que passo em viagem, nos autocarros. são principalmente mais uma razão para não andar de carro. preciso das mãos livres, do pensamento livre para se prender com aquilo que é importante. escrever. preciso de outra metamorfose o processo é difícil.
próxima área de serviço, palmela. a sinceridade passa por dizer não. a sinceridade acima de tudo. tanto para escrever, tanto para ler e no entanto...sem retiro, sem solidão não sai nada. a vida de kafka passou-se numa enorme solidão. a qualquer preço. não para ele. o preço foi sobretudo suportado por outros. é claro que também o sentiu. a diferença reside no facto de ter apesar de tudo, chegado a mim. posso sem dúvida dizer que a quantificação dos sentimentos pode ser uma realidade. no futuro tudo pode ser realidade. dizer o contrário é pior. melhor será nada dizer. ficará apenas registado na minha memória até que o permita. no papel ficará até que ele seja sujeito. a sinceridade é mais fácil posta no papel.


SONETO DE NATAL

mais bocage não sou
agora que me encontrei
resolvem-se as desgraças
partem os corações

estou mais perto que pensava
estou tão certo do que não sei
que estou certo que perto
de alguém sempre estarei

por agora estou sozinho
mas com kafka estou,
oiço a música, bebo chá.

mais tarde daqui vou
por agora estou sozinho
mais bocage não sou.


FOSSO

vidas provisórias lidas nas colunas
ecrâns, ondas e esplanadas.
tísico futuro o nosso
tristes exemplos de democracia
contados em cifrões
mau tempo e depressões
espero poder um dia
inundar o espírito com o fosso
sabendo que as ferrugentas espadas
serviram para repor sonhos sem sepulturas


O QUE FOI

almas doridas a minha e a tua
estendem poemas imanando flogisto
antes ouvidos em leito de fôgo
agora se estinguem por bálsamos perdidos.


Tanto...Nada

Tanto para dizer e no entanto...nada!?
Tanto para fazer e por enquanto...nada!?
Nada para ler mas entretanto...tanto!?

De tudo o que há por dizer, do quanto por fazer e entre as sílabas por ler,
Nada que eu diga ou faça será no,
por,
ou entre,
Tanto.


UM VELHO

parecia pousar no perfíl
mesmo na beira do sinal
com os olhos vazios
cheio de fome.cheio de nada.

era um só
sábio traste sem vaidade parece que apenas queria
companhia para verter voláteis vozes vazias.


pouco sabereis do nada que sabia
não deixou gosto amargo
tão pouco trama guardada
quem sabe se um dia
ao percorrer zéfiro no largo
descubra o vazio deixado.


ESPERANÇA INGÉNUA

fúria cresce desespera intestinal solidão guardada floresce poderia perpetuar esperança ingénua volátil desejo altruísta



rumos por aqui começo
desnorte por aqui avanço
palavras frias
sentidos certos
poderemos sem certeza continuar por este caminho que nos leva até ao último fôlego trajando corpos sôfregos desiguais.
corpos fartos da sua utilidade.
manta que aquece a alma
sem referências ao divino
continua a servir de retábulo para memórias que teimam em não te deixar
processo ferido de morte
derrama o teu interior
nas correntes que com o tempo te levarão para o mais que certo lugar
cremado e não esquecido
poderias pelo menos agora deixar as feridas sarar.
verdade sem oposto
coisa difícil de encontrar
se desse poço eu bebesse
o coração rebatesse
tudo tomaria o devido lugar.
foi duvidoso este comêço
pior será não o tomar.
tal é a vontade de saber
nem sem por onde começar.


REFÚGIO

refúgio: Zona livre de barreiras no horizonte.
Aqui a contemplação está ao dispor e dispõe,
nada de elos de corrente, nós ou âncora.
Apenas um imenso horizonte .
O mar que nos liberta.

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